Sobre o crescer e a dor

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Faz tempo que não me encontro comigo. Os amigos costumam dizer que a gente anda sumido, é normal. “A vida ‘tá corrida”, respondemos. Mas, estar sumido de si mesmo aponta para uma doença grave. Estou sumida de mim. O tempo anda curto para me encontrar, para me ouvir. Mas sobra pra viver pela cartilha dos outros e ler uma porção de frases feitas, dançando numa tela fria. É um jeito confortável de tocar as coisas. Mas será bom?

Olhar para a gente é doloroso. Aquela no espelho não é exatamente minha melhor amiga. Reclama demais, tem obsessão por limpeza e organização. Uma perfeccionista viciada, procrastinadora, pouco sociável e patologicamente medrosa. Como vim parar aqui?

Aí me lembro da infância. Algo que nasceu lá foi soterrado por uma pilha de responsabilidades tristes. O prazer de desenhar, inventar histórias, teatros e projetos de papel foi substituído pela urgência de pagar contas e pelo medo de andar nas ruas de noite. É preciso bater ponto, pensar no futuro, na poupança, na aposentadoria, no plano de saúde. É impossível voltar para aquele tempo em que existia a brincadeira e a criação, leve e despretensiosa.

No meio desse impasse, apareceu a dor. Enxaquecas insuportáveis me fazem companhia, frequentemente. É como se o corpo produzisse a dor que sinto na alma, tentando expurgar todas as mazelas. A dor não me deixa abrir os olhos, nem fechá-los. Não me permite dormir, nem pensar. Mas ela também tem uma capacidade incrível de me fazer sentir viva. Além disso, me impulsiona para uma importante decisão: amar com todas as forças essa existência sofrida ou negá-la, anulá-la e anestesiá-la?

Não falo de amar a dor, apesar de entender o mecanismo e aceitá-lo. Mas é importante nos mantermos encantados por essa mistura de possibilidades imprevisíveis, doces e amargas, multicoloridas, que compõem a Vida. Hoje, escolhi amar. Acho que é a única forma de me reaproximar daquela pequena que desenhava apaixonadamente, sem preocupações. Mas é necessário fazer essa escolha todos os dias. Algo difícil e, ao mesmo tempo, imprescindível.

E você, o que escolheu hoje?

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9 Responses to “Sobre o crescer e a dor”

  1. Muito bom pensamento. Ainda esses dias andei pensando em amar o ódio ao invés de odiá-lo ou seputa-lo. Só o amor pode interromper um ciclo negativo e a não aceitação da realidade

  2. Hoje a sociedade vem passando por muitas provações devidos os compromissos. Esses vêm crescendo diariamente. Porém, as escrituras orienta como devemos proceder para que essas mazelas do mundo não afetem nosso psicológico e nosso bem estar de vida.
    Entretanto, A palavra de Deus tem a solução para que essas preocupações diárias não sejam um fardo. Nas escrituras é citado o dia do descanso, onde o fardo é retirado em nome do Nosso Senhor Jesus. Mas, Por haver uma rejeição por parte de alguns e desconhecimento de outros, a semana torna-se dolorosa e a próxima começa enfadonha.
    Contudo, para quem já pratica, sabe como é maravilhoso e, como tem mudado a vida de várias pessoas com o dia do descanso ao lado do Senhor Nosso Deus. Portanto, a minha escolha é: ao lado Dele e estando na Igreja que guarda os Seus Mandamentos.

  3. Como pode um outro ser escrever exatamente aquilo que vc gostaria de ter escrito? É a magia da poesia, traduz em palavras o sentimento. Parabéns a quem escreveu, bela tradução!

  4. Sei não,falar de crescer e a dor,tudo junto é certo, mas é preciso uma junta multidisciplinar, sei lá, até mesmo teológico me parece ser, mas que tipo de dor, do corpo? Se for, cuidemos, da alma também cuidemos, pois o Senhor se faz morada em nós- aceitemos, sim, Se for fraquezas, para mim, prefiro orgulhar-me, para que habite em mim a força de Cristo (2 Cor 12,9b).

  5. Idéia muito bem expressa!

  6. Sempre fui do lado do amor, amor a tudo e a todos porque tenho Deus em tudo na minha vida, mas com o passar dos anos e com algumas perdas, sinto triste em dizer que a maioria das pessoas não estão amando e sim se odiando, devido à vários fatores… Mas mesmo assim não perco a esperança na humanidade!

    Parabéns a quem escreveu!

  7. Parece que os maus são felizes e as pessoas de bem sofrem enclausurados em pensamentos.
    A vida dos outros se liga no todo e a cartilha dos maus nos são impostas.
    Amar o ódio ou a dor é bem difícil para mim. Apesar disso, amarei.
    Esse texto despertou-me.
    Parabéns!

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