21/03/2013

A cegueira da poesia

Muitas cores

O que mais incomoda nas expressões de diversas doutrinas religiosas é a estreiteza do olhar, a “cegueira da poesia”.

Para os cegos de poesia, só há ferramentas, trabalhos e deveres. Eles precisam de regras firmes, como um animal precisa de cabresto. Elegem um livro de palavras inquestionáveis. Por quê? Porque sim. Porque foi Deus. Por medo. E o que deveria ser Boa Nova (o real significado de “Evangelho”), transforma-se num pesado fardo de palavras mortas, ditadas por cegos que conduzem cegos. De um lado pecado, diabo, sofrimento. Do outro, um Deus mesquinho que aceita vultosas quantias em troca de promessas de sucesso e curas improváveis.

Carregando tamanha tristeza, o único objetivo desses cegos é aliciar mais cegos. Por dinheiro, por poder, por insegurança… Para fugir da ira desse Deus inquisidor que criaram pra si mesmos.

Nas questões da sexualidade, a cegueira se faz mais evidente: os órgãos sexuais são meros utensílios reprodutores. O que eles chamam de “natureza” é apenas um maquinário, uma fábrica, como se fôssemos produtos industriais. Mas a real natureza não se preocupa com isso, ela tem caminhos improváveis, encontra meios de se diversificar.

Um gorila adota um gato.

A natureza faz poesia.

Quer maior poesia do que a trans, a bi, a homossexualidade? Seres que se veem além dos gêneros pré-definidos. É necessário “transver o mundo”, como diz Manoel de Barros. As coisas só são as coisas quando as enjaulamos em conceitos. A verdade não pode ser transcrita num livro. Ela está aí, desafiando-nos, florescendo diante de nossos olhos. E o arco-íris não vai deixar de colorir o céu, apesar da cegueira epidêmica dos tempos atuais.

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11/05/2012

Sobre o crescer e a dor

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Faz tempo que não me encontro comigo. Os amigos costumam dizer que a gente anda sumido, é normal. “A vida ‘tá corrida”, respondemos. Mas, estar sumido de si mesmo aponta para uma doença grave. Estou sumida de mim. O tempo anda curto para me encontrar, para me ouvir. Mas sobra pra viver pela cartilha dos outros e ler uma porção de frases feitas, dançando numa tela fria. É um jeito confortável de tocar as coisas. Mas será bom?

Olhar para a gente é doloroso. Aquela no espelho não é exatamente minha melhor amiga. Reclama demais, tem obsessão por limpeza e organização. Uma perfeccionista viciada, procrastinadora, pouco sociável e patologicamente medrosa. Como vim parar aqui?

Aí me lembro da infância. Algo que nasceu lá foi soterrado por uma pilha de responsabilidades tristes. O prazer de desenhar, inventar histórias, teatros e projetos de papel foi substituído pela urgência de pagar contas e pelo medo de andar nas ruas de noite. É preciso bater ponto, pensar no futuro, na poupança, na aposentadoria, no plano de saúde. É impossível voltar para aquele tempo em que existia a brincadeira e a criação, leve e despretensiosa.

No meio desse impasse, apareceu a dor. Enxaquecas insuportáveis me fazem companhia, frequentemente. É como se o corpo produzisse a dor que sinto na alma, tentando expurgar todas as mazelas. A dor não me deixa abrir os olhos, nem fechá-los. Não me permite dormir, nem pensar. Mas ela também tem uma capacidade incrível de me fazer sentir viva. Além disso, me impulsiona para uma importante decisão: amar com todas as forças essa existência sofrida ou negá-la, anulá-la e anestesiá-la?

Não falo de amar a dor, apesar de entender o mecanismo e aceitá-lo. Mas é importante nos mantermos encantados por essa mistura de possibilidades imprevisíveis, doces e amargas, multicoloridas, que compõem a Vida. Hoje, escolhi amar. Acho que é a única forma de me reaproximar daquela pequena que desenhava apaixonadamente, sem preocupações. Mas é necessário fazer essa escolha todos os dias. Algo difícil e, ao mesmo tempo, imprescindível.

E você, o que escolheu hoje?

07/02/2012

Looking for Joy

“These things have I spoken unto you, that my joy might remain in you, and that your joy might be full.” John, 15:11

Tenho esse encantamento pelas palavras, desde que aprendi a decifrá-las. O termo inglês “joy”, por exemplo, provoca em mim uma espécie de simpatia instantânea. Não sei qual seria sua melhor definição na língua portuguesa: alegria, felicidade, júbilo, regozijo, gozo? Joy é uma palavra curta, fácil de pronunciar, que traz uma carga de contentamento expansivo, contagiante e inspirador. No entanto, é mais simples achar fontes baratas de energia renovável do que encontrar “joy” nas vidas dos indivíduos de hoje.

A família, a escola, o mercado de trabalho e tudo o mais, exigem de nós autossuficiência, controle, autoconfiança, proatividade, ousadia… Valores como criatividade, gentileza, honestidade ou calma estão no final da lista (quando existem). Isso por conta da lógica(?) da máquina, que se desgasta cada vez mais rápido e precisa de peças ágeis, jovens e dispostas a tudo, em prol do funcionamento da engrenagem injusta e triste. Portanto, existem duas opções de vida, nesse mundo urbano globalizado: adequarmo-nos aos padrões, tornando-nos peças ideais do sistema e alimentando o vazio consumista OU negarmos tudo isso e transformamo-nos em párias, marginais, sujeitos a rejeição e grandes privações. Nenhuma dessas duas formas parece levar a uma fonte segura de “joy”.

Escrevo hoje porque é exatamente isso que me aflige. A perda de alegria, de sentido e motivação. Todos os dias luto contra essa realidade – e acredito que muitos de vocês, também. A sensação de que o mundo está absurdamente errado e que nenhuma ação ou herói é capaz de reverter a situação; a percepção de que as religiões estão perdidas, preocupando-se mais com o proselitismo, com a preservação de seus templos e patrimônios do que com a vontade sincera de aproximar as criaturas…

Mas, apesar de tudo, ainda não desisti da busca. E é por isso, também, que escrevo. Manter-me viva, pensante, questionadora e sensível talvez seja um passo importante para o encontro da alegria perdida. Quem tiver dicas, por favor compartilhe aqui. Estou certa de que podemos descobrir muita coisa juntos, dia após dia. Prontos para a jornada? Enjoy it.

09/09/2011

Flor do dia

Lá na casa dos meus pais há uma porção de plantas. De vários tipos, vasos diferentes, um canteiro, onde flores elegantes dividem espaço com mato, tudo bastante democrático. No meio dessa profusão verde, existe uma espécie de florzinha azul que adoro. Há algum tempo, fui visitá-los e fiz menção de fotografar a tal flor. Minha mãe: “Anda logo, que ela só dura um dia”. Aí enrolei um bocado (clássico efeito inverso, que as mães têm o poder de provocar) e a luz baixou. Quando enfim resolvi bater a foto, já não havia mais nada. Não acreditei que a natureza passasse tanto tempo aprontando uma flor delicadíssima pra desfazê-la em menos de vinte e quatro horas! Como os monges do Nepal, que constroem belas e complexas mandalas de areia, para ao fim, simplesmente espalhá-las aos quatro ventos. Percebi e aceitei que tinha perdido o instante, distraída com coisas menos importantes do que a trajetória de uma flor.

(Tempos depois, tive outra oportunidade e saí debaixo de chuva para conseguir a imagem que veem acima. Vivi aquele momento de celebração da efemeridade. Capturei a cena, a fim de lembrar que é preciso estar presente e deixar fluir, ao mesmo tempo,  sempre).