Era uma daquelas solenidades chatas, cheia de políticos e discursos óbvios, como eu já previa. Muita gente chegou cedo (deviam estar todos obrigados ali, como eu) e o negócio demorou mais de uma hora até começar – torturas nunca são rápidas. Depois de muito tempo de pé em cima de um mal escolhido sapato de salto, arrumei um cantinho num banco, que me pareceu paradisíaco naquele momento.

Minha frustração era evidente. Mas, como ninguém prestava atenção, pelo menos podia ser sincera e exibir ‘claramente’ meu descontentamento. Nesse momento, ele apareceu. Desconcertante, de tão lindo… Uma beleza européia de criança “Mc Donald’s”, mas com a pele dourado-feliz de quem conhece o sol dos trópicos. Acompanhado de uma moça não menos reluzente, negra, com cabelos muito vermelhos.

A mulher emplacou uma conversa animada com amigas, enquanto outro falatório no palanque improvisado acontecia. E eu não conseguia tirar os olhos do ‘pequeno príncipe’, que já estava entediado ali, sem ter com o que brincar. Um rapaz distribuiu balões para as poucas crianças do lugar, mas ele não ganhou. Discreto, em sua nobreza, perdeu alguns segundos olhando para os brinquedos flutuantes dos outros pequenos, mas não se manifestou. Pensei em fazer um desenho para ele (evitando cobras, elefantes e carneiros, obviamente) mas não tive ânimo.

De repente, ele me descobriu… E quando percebi, brincava de se esconder atrás da moça e depois rapidamente me olhar – clássico jogo das crianças pequenas, que nunca sai de moda… Não contive um sorriso surpreso por ter sido notada por um anjo. E ele ainda incrementou a brincadeira, numa das aparições, surgindo com óculos escuros enormes e uma expressão de galã de anúncio da Parmalat. Hilário e encantador.

pequeno principe

Enfim, esse rapazinho me fez perceber quão inútil era o meu mau humor. Não vi o momento em que ele foi embora – acho que evaporou, como todo pequeno milagre…  Mas salvou meu dia com suas ‘traquinices’, e não ouvi um discurso sequer.


Um homem matou a ex-esposa e vários familiares, em uma festa de natal, em Los Angeles, Estados Unidos. Ele trajava uma fantasia de papai Noel. Após o crime, cometeu suicídio.

Notícia chocante ao extremo, principalmente pelas circunstâncias da época de natal…

Me questiono muito quando vejo algo assim, divulgado pela grande mídia. Tudo indica que a motivação para a chacina era a obsessão pela mulher e a não-aceitação do divórcio. Antes de condenar o sujeito, vamos refletir. Quantas tragédias desse tipo já aconteceram, por razões semelhantes? Quantos amores adoeceram e se transformaram em revolta, ódio e, como nesse caso, até morte?

Nós, humanos, trabalhamos muito para automatizar o conforto, eliminar tarefas desnecessárias do dia-a-dia e aumentar a praticidade de nossas vidas. O objetivo? Economizar tempo para nos dedicar a coisas importantes. O problema é que, no meio do caminho, perdemos a noção do que é realmente importante. Passamos a lidar com as relações sociais e afetivas com a mesma postura consumista e imediatista com a qual tratamos todo o resto. Se um macarrão fica pronto em três minutos, por que as minhas carências emocionais também não se resolvem instantaneamente? Clique aqui e encontre o amor da sua vida. Tudo simplificado, rápido e, por que não dizer, ralo…

Esse tratamento artificial do tempo, em que tudo parece estar evoluindo de forma absurdamente veloz, nos afasta cada vez mais de nossa própria natureza. As pessoas não estão mais próximas por causa dos celulares e nem têm mais amigos por participarem de redes sociais. É tudo ilusório. As relações continuam precisando de atenção, dedicação, tempo e carinho. E as respostas aos nossos caprichos não vem na velocidade de um e-mail ou de uma mensagem de sms. Estamos nos tornando seres mimados, desdenhando o valor da paciência e da delicada (e demorada) construção da felicidade.

Grande parte das frustrações é alimentada pela nossa sensação de incompletude. Nos vemos como seres solitários, desgarrados de um todo e fadados a vagar pelo mundo em busca dessa conexão com o universo. Essa é nossa busca. Essa é a questão das religiões. Essa é a questão do amor romântico. O mais interessante é que já somos seres inteiros. Naturalmente ligados a tudo, pelas delicadas e invisíveis teias da Vida. Resta saber se queremos aceitar essa natureza, e entregarmo-nos a esse fluir constante, desapegados de nossas certezas e desejos infantis.

Podemos nos plenificar no Amor. Somos mais do que animais pensantes. Somos o próprio amor que procuramos no outro; somos a luz que buscamos fora de nós…

Feliz 2009 – e que possamos, de hoje em diante, celebrar as pequenas alegrias, encontrar a cura da pressa e desenvolver a aceitação dinâmica de tudo que a Vida nos trouxer.

Paz e bem.



Você veio

21Nov08

Você veio.

Quando eu já estava rouca de tanto blasfemar. Não cantava mais para os anjos, não falava mais com Deus. Nesse dia, minha teimosia se esfacelou em pedaços de puerilidade vã. Eu me libertei. E voltei a cantar para os anjos; e eles dançaram novamente.

Porque você veio.

Como quem chega do nada e certamente irá embora da mesma forma. O vento só existe em movimento. Difícil guardá-lo em uma gaiola. Mas o deserto jamais se esquecerá da brisa que lhe beijou a fronte, atenuando sua árida solidão.

Quando você veio.

Espalhou meus papéis e derrubou minhas máscaras. Eu me vi nua. E me senti nuvem. Meus sonhos encheram lagos, meus braços ergueram montes, meus olhos acenderam astros. E desejei com todas as forças ser a paisagem mais deslumbrante que você jamais tivesse visitado.

Eu pedi.

E você veio.


Riqueza humana

01Nov08

Quanta riqueza humana anda escondida atrás de máquinas. Quantos rostos, iluminados por monitores frios, aos poucos vão se esquecendo da beleza de suas pequenas imperfeições. O espaço virtual nos promete estética impecável. Formas regulares, geométricas, perfeitas. Sem ruídos. Mas não somos isso e nunca seremos. Apesar de feitos da mesma matéria que as máquinas, animados pelos mesmos impulsos elétricos, somos mais. Somos alma. Desorganizados, caóticos, eufóricos. Cheios de cálculos incorretos, de atos indeléveis. Carregamos memórias que não podem ser substituídas, dores que nunca serão curadas e sonhos que jamais caberão em nós.

Foi nisso que andei pensando hoje, olhando para aqueles que apelidamos de @s, mas que não se reduzem a caracteres, ícones, avatares. Lindos espécimes de uma raça de animais curiosos, criativos, pensantes, questionadores, inquietos…

Lindos!

Agradeço pela companhia.


O evento, oficialmente, é isso aqui. Mas as impressões pessoais são sempre mais divertidas, então recomendo que visitem Limão Expresso e Indecidíveis pra saberem realmente o que – e como – aconteceu. Uma cerimônia para quadrinistas e humoristas que não guardou lugar para a moça-inseto aqui versus uma mesa de bar animadíssima, cheia de gente talentosa e literalmente bem-humorada. O resto, as amigas aí já disseram.


Para Raul

17Out08

Hoje queria escrever algo para ele. Mas estranhamente as palavras não colaboraram. E olha que é costume elas saírem fáceis, mesmo que seja para escrever algum clichê emocionante. Mas não, dessa vez não. Os últimos dias têm sido estranhos. Os últimos dias não, os últimos anos. E alguma magia parece que escorreu pelo ralo, ficou tudo mais embaçado. É o tempo, né? A idade. Ah, que ironia, falar da idade. Esse era pra ser um recado de aniversário, alegre, cheio de vida. Mas, ‘tá. É disso que estou tentando falar. Se a vida (essa mesma) é um tanto quanto confusa e toma rumos inesperados, também nos traz presentes. Essa é uma das poucas verdades nas quais aposto todas as fichas. A vida nos dá presentes. Meu irmão é um desses presentes. Se eu ando amarga, desacreditada e mais mal-humorada do que o normal, me lembro dele e parece que isso me atenua. Ele é como se fosse a parte melhor de mim, mais solto, mais simpático, menos preocupado com as amarras. Sabe andar de bicicleta. Sabe dirigir. Sabe tocar violão. E sempre que preciso, ele me perdoa.

Ele é minha redenção.

Parabéns, timanim.


Aperto

08Out08

Aperto os olhos por causa da chuva

No coração, o aperto por causa da dúvida

- Eu sei o que você tem, disse o anjo:

- é falta de alguém.


Carne

02Out08

Moço, me vê um pedaço de carne

Da mais macia, firme,

suculenta e deliciosa.

Nem precisa embrulhar.

Vou comer agora.


fama

30Set08

os holofotes cegam.


Dieta do lixo

29Set08

Todos os dias eu ando no meio do lixo.

Do lixo e de gente.

Todos os dias eu vejo o esgoto hemorrágico

da mesma ferida.

Esgoto e gente.

Todos os dias eu penso

em toda a gente que se alimenta desse lixo

e dessa ferida.

não os que moram no lixo,

pois estes têm uma dieta mais elaborada:

um prato raso de esperança

três vezes ao dia

todos os dias.